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Vilém Flusser - Imagem televisiva e espaço político

 Para Vilém Flusser, na cena, coisas acontecem, tudo é acontecimento. Por sua vez, no mundo linear processual nada acontece, tudo é evento. A diferença entre acontecimento e evento é que o acontecimento é fruto do acaso, do acidente, enquanto o evento é fruto de causas objetivas, que resultarão em consequências, seguindo uma linearidade.

 Segundo Flusser, a dialética interna, que permite que as imagens escondam o mundo, é a razão para uma alienação. Imagens, que são fortemente magicamente carregadas, são destinadas para pessoas se orientarem no mundo, mas quando elas se tornam muito forte, as pessoas usam essa experiência de mundo para se orientarem na imagem. A imagem torna-se a realidade concreta e o mundo é apenas um contexto. Essa inversão da relação entre os mundo da imaginação e da experiência, é chamada pelos filósofos de idolatria. Tanto que Platão consideraria a arte e a imagem anti-política e anti-república (contra coisa pública). Com base nisso, surge a escrita linear, cuja finalidade era abrir as imagens, explicando elas e, assim, abrir a visão do mundo vivido.

 Agora havia dois termos completamente opostos: acontecimento e evento. O mundo dos acontecimento é um mundo caótico, em que tudo se repete sem motivações para ser. Mas no mundo dos eventos (políticos, históricos), na visão do mundo como um processo, nada se repete, tudo é um evento que tem causas e consequências, sendo algo que pode ser explicado racionalmente. A consciência que corresponde a imagem é chamada de consciência mágica-mítica. E a consciência que corresponde a a escrita linear, a essa visão processual, é chamada de consciência política.

 Durante a história da sociedade ocidental, enquanto a escrita linear avançava sobre os acontecimentos a fim de explicá-los, as imagens infiltravam-se no textos, os ilustrando. A razão para esse conflito ambíguo (e até paradoxal) na civilização ocidental é o fato de que imagem e texto, imaginação e pensamento conceitual, magia e política estão sempre em guerra. Mas, com a invenção da impressão, as imagens foram eliminadas, ficando restritas a museus e academias, e cenário dominado pela escrita. Sendo o Iluminismo o apogeu da escrita linear e da política. Nos tempos seguintes, com a ausência da imaginação, desenvolveu-se diversas teorias, e por causa disso, a ciência projetou uma visão de mundo perfeitamente concebível, mas totalmente inimaginável. A ausência da imaginabilidade fez com que surgisse a fotografia.

 Para Vilém, há uma visão de que a fotografia transcendeu a história e congelou os eventos em acontecimentos. Mas no momento que se distancia da política, a imagem perde seu ponto de vista. Algo similar ocorre com a televisão, que não pode ser, como qualquer outra imagem, uma coisa política, pois é anti-política em sua própria origem e estrutura.


Perguntas solicitadas para fomentar o debate:

1) Em um livro sobre arte, que possui imagens (pinturas, por exemplo) e textos que as explicam, o que domina é a imagem ou a escrita?

2) O desenvolvimento da teoria da existência de átomo pela ciência configurou um pensamento concebível, mas inimaginável. A ilustração desse átomos contribui para tornar essa teoria mais imaginável? Se sim, até que ponto?

3) A utilização da mídia televisiva para transmissão de um evento político, sem intuito de transcender à história, é então um acontecimento ou um evento?

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